O joelho é uma das articulações mais frequentemente acometidas na paralisia cerebral. Sua vulnerabilidade decorre da posição central que ocupa na cadeia cinética dos membros inferiores: alterações no quadril e no pé influenciam diretamente o joelho, e vice-versa. A espasticidade da musculatura isquiotibial, a fraqueza do quadríceps, a reduzida seletividade motora e os distúrbios de braço de alavanca criam um ambiente biomecânico desfavorável que, ao longo do crescimento, favorece o surgimento de deformidades progressivas.
Joelho flexo e marcha em agachamento (crouch gait)
O joelho flexo é a deformidade mais comum, caracterizado pela incapacidade de extensão completa durante a marcha. Quando bilateral e associado a flexão de quadril e dorsiflexão excessiva do tornozelo, configura o padrão conhecido como marcha em agachamento, ou crouch gait, um dos mais funcionalmente limitantes e energeticamente custosos na PC.
Caminhar de forma persistente com os joelhos fletidos sobrecarrega o quadríceps de forma contínua, levando à fadiga muscular precoce e ao agachamento progressivo. A longo prazo, essa sobrecarga pode resultar em dor no polo inferior da patela, síndrome do estresse patelar e, nos casos mais graves não tratados, fratura por estresse da patela.
Um conceito importante nesse contexto é o das compensações: a criança com joelho flexo frequentemente desenvolve hiperlordose lombar, anteriorização do tronco e rotação interna do quadril como mecanismos para manter o equilíbrio e a progressão durante a marcha. Essas compensações, se não reconhecidas e tratadas de forma integrada, podem gerar sobrecarga em outras articulações e dificultar o planejamento cirúrgico.
Marcha com joelho rígido (stiff knee gait)
O oposto do joelho flexo também pode ocorrer: o padrão de joelho rígido durante a marcha, no qual a flexão normal do joelho na fase de balanço está reduzida ou ausente. Esse padrão está frequentemente associado à espasticidade ou à atividade inapropriada do músculo reto femoral, e resulta em dificuldade de avanço do membro, com compensações como circundução do quadril e elevação da pelve para permitir a passada.
A avaliação tridimensional da marcha tem papel fundamental na diferenciação entre esses padrões, pois o tratamento de cada um é distinto — e uma intervenção inadequada pode piorar o quadro.
Joelho valgo
O joelho valgo — ou “pernas em X” — pode ocorrer na PC tanto como deformidade primária quanto como resultado de compensações de deformidades em quadril e pé. A espasticidade dos adutores e a fraqueza dos abdutores do quadril, combinadas com o valgo do retropé, frequentemente contribuem para o desenvolvimento ou agravamento do valgo do joelho.
Do ponto de vista funcional, o joelho valgo pode gerar sobrecarga no compartimento lateral da articulação, dor, instabilidade e comprometimento do padrão de marcha. Nos casos mais intensos, pode haver também subluxação lateral da patela, gerando dor anterior no joelho.
Quando avaliada como clinicamente relevante, a abordagem busca restaurar o alinhamento dos membros inferiores, melhorar a distribuição de carga e contribuir com a estabilidade durante a marcha.
Joelho varo
O joelho varo — “pernas em O” — é menos frequente que o valgo na PC, mas pode ocorrer especialmente em pacientes com padrão de marcha em equino-varo ou como sequela de deformidades não tratadas. O varo aumenta a carga no compartimento medial do joelho e pode predispor à artrose precoce. A avaliação do alinhamento global do membro, incluindo fêmur e tíbia, é essencial antes de qualquer planejamento terapêutico.